sábado, 18 de julho de 2015

quinto dia.

Pulei os dias três e quatro por achar que não tinha nada a dizer.

Amigo, hoje estou um pouco mais introspectivo. Um pouco melancólico, talvez. Eu estava pensando aqui: talvez por uma série de razões pelas quais não consigo identificar que se apresentaram na infância, a minha necessidade de atenção foi sendo construída aos poucos. É curioso que eu nunca liguei se a atenção era boa ou ruim, desde que ela se fizesse presente.

Quando cheguei aos quatorze anos mais ou menos e sabia mais ou menos que caminho queria seguir, passei a ler grandes filósofos e grandes obras da literatura. Nietzsche, Kierkeegard, Schopenhauer, Rimbaud, Tolstói e outros. Acho que pra um garoto de cabeça fraca que queria se sentir especial, ler isso tudo pode ter sido essencialmente prejudicial. Obviamente a culpa de tudo que acontece hoje não é nem um pouco deles.

Nos dezesseis, quando fui entender mais quem tinha sido Jim Morrison, Janis, Billie Holliday, Cobain, Curtis e outros acho que ali passei a internalizar a ideia de que pra se produzir uma obra artística de qualidade ou profunda necessariamente você ia precisar de uma atitude dionisíaca. Um desapego completo do padrão de humanidade e dos protocolos sociais. Acho que apesar do meu lado consciente demonstrar (até hoje) um desprezo completo por quem eu sou, o inconsciente ficou martelando que talvez eu fosse um gênio incompreendido que só iria ser reconhecido após a invariável morte.

Acho que foi ali que a auto-destruição começou. Eu queria ser reconhecido pela minha arte. Não tinha nada além disso a oferecer pro mundo. Queria estar num patamar próximo a todos eles. O que vim a realizar só agora, amigo, quando bati no fundo do poço é que você não precisa ser deslocado, misantropo, depressivo o tempo todo e tudo o mais pra conseguir fazer uma boa arte. Acho que a imagem dionisíaca que se formou desses artistas no inconsciente coletivo contribui pra isso. Não sei. Mas de novo, a responsabilidade é toda minha e de mais ninguém.

O que me machuca, amigo, é saber o quanto essa ideia absurda machucou meus queridos amigos por tanto tempo. E concluir, então, que o melhor que eles puderam fazer era exatamente o que fizeram: me deixar me perder no mundo. Tenho certeza que o fim não foi só doído pra mim, e que a V., Vl. e N. também sentiram esse fim, mas ao mesmo tempo, sentiram algum alívio de finalmente estarem se afastando de alguém que é (logo menos, era) tóxico e que tinha uma aura de destruição envolta de si. Na minha cabeça deturpada, me jogar de cabeça ao fundo do poço talvez amortecesse a queda de quem pudesse cair nele também e impediria que coisas mais pro fundo subissem. Você toca a escuridão e ela toca de volta.

Queridos amigos, me desculpem. Me perdoem. Sei que as coisas não vão ser como eram, e sei também que acho que não quero que sejam. Mas ao menos, só por hoje, quero me sentir em paz com vocês. Só por hoje e para sempre.

Não tenho muito mais a dizer por hoje. Estou ficando um pouco ansioso escrevendo isso. Vou tentar desligar a cabeça por algumas horas.

Love,

Cesar

quarta-feira, 15 de julho de 2015

segundo dia.

Amigo, hoje foi um dia normal. Um pouco do blue me abalou os pensamentos durante a tarde, me dando uma incrível forma de dormir. Provavelmente uma reação escapista do meu próprio corpo evitando gastar sua energia com pensamentos que provavelmente não iriam me levar a lugar algum.

Hoje o tema constante do meu pensamento foi o amor. O amor erótico, o amor philia e o amor ágape. Os amores perdidos, os amores que ainda estão por vir, os jubilos da paixão e os lamentos do fim dela. Amor, puro e simples. Notei algo estranho: as pessoas estão querendo se blindar do amor, de certa forma. Consigo entender elas. Em algum momento da trajetória, o amor deu uma porrada forte nelas. Provavelmente mais de uma vez. A saída, então, é um mecanismo de defesa que tenta impedir a paixão de tomar controle delas e fazer florescer ali um fogo que no final pode causar uma grande dor a elas mesmas.

Mas amigo, isso nunca fez sentido pra mim. Eu te digo, amigo: ache o que você ama, ou o que ama amar e deixe isso te matar. Deixe isso sugar toda a energia que você tem, deixe isso subir nas suas costas e te absorver a vida até o seu eventual nada. Deixe isso te matar e devorar os seus restos. Porque, amigo, no fim das contas tudo vai nos matar. Aos poucos ou rápido. Mas a minha conclusão é que é muito melhor ser morto por um amante.

Talvez esse discurso pareca absurdo pra você, amigo. Mas faz sentido na minha cabeça. Talvez pra mim seja a melhor forma de viver, por mais que no meio do caminho, isso me arranque pedaços e me bote de joelho.

Em outros assuntos, tenho confirmado cada vez mais que o rock'n roll é o meu entorpecente. Ao ouvir os riffs meteóricos do Led Zeppelin ou a progressão de Pink Floyd é como se eu estivesse num estado de transe, mais sereno, mais calmo.

Não tenho muito mais pra falar, meu caro amigo. Só se lembre: estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão buscando as estrelas. Você não tem lugar algum pra seguir seu caminho, então continue seguindo as estrelas.


Sempre seu,

Cesar Gaglioni Federici

terça-feira, 14 de julho de 2015

primeiro dia.

Talvez seja bom eu deixar registrado os passos do recomeço, dessa nova vida.

O que mais tem me chamado a atenção é como Janis estava certa. Liberdade é só mais uma palavra para definir não ter nada a perder. A liberdade tem se apresentado, como quase todas as coisas dessa coisinha doida chamada vida, como algo que é bom e ruim ao mesmo tempo, entende? Se por um lado perder àqueles que me eram mais importantes na existência foi a pior coisa que aconteceu na minha vida até o presente momento, por outro me deu a oportunidade de sair definitivamente em busca de quem eu era. Objetivo, que até então, ficava somente no discurso e não partia para nenhum lado ou prospectiva de ação.

Conclusões finalmente vieram. E com elas, uma facilidade de se traçar um plano se apresentou. A conclusão primordial que cheguei foi: eu preciso de uma atenção constante para conseguir me sentir "de verdade". Não sei qual é a causa de tudo isso, mas tenho certeza que a terapia vai conseguir me fazer achar em qual momento do passado isso tudo começou. É engraçado, quando estava namorando isso também se fazia presente. Parecia, para mim, que a única forma de validar todo o sentimento bom, todo o amor, todo o carinho que elas sentiam por mim era fazendo alguma coisa que fariam ao mesmo tempo, sentirem pena. Amigo, te digo, é uma sensação horrível só conseguir aproveitar os sentimentos bons que alguém te dá se ao mesmo tempo essa pessoa te olhar com pena. A raiz de todo o mal que aconteceu partiu desse primórdio, dessa vontade constante por lembretes de que eu estava vivo.

É como uma droga, eu acho. Acho que no fim, as drogas fazem isso para as pessoas. Lembram elas de que elas estão vivas. Não sei. Mas tenho a sensação de que o vício por atenção não foi diferente de uma droga.

Queridos amigos, se um dia vocês vierem a ler isso, lhes digo: os erros que cometi nunca foram cometidos com intenção de machuca-los ou de decepciona-los. Sempre foi por amor. Talvez um amor egoísta, uma vontade minha de conseguir amor e ali me sentir um pouquinho mais pertencente a nossa espécie. Queridos amigos, eu tenho certeza que vocês estão fazendo muito bem sem mim, e essa ideia me enche o coração de alegria. Por mais que a saudade se faça presente todos os dias desde o fim, também tenho me saído bem. Tenho feito coisas que provavelmente fariam vocês darem boas risadas, já que quando estávamos juntos eu dizia categoricamente que XAMAIS iria fazer qualquer uma delas. Mas acho que esse é mais um presente da liberdade que veio depois do fim. Não me senti mais obrigado a seguir um script de personagem que foi construído com o passar dos anos. Pela primeira vez pude fazer o que queria fazer sem medo de ninguém achar que isso não era algo de meu feitio. Queridos amigos, eu espero que vocês sejam extremamente felizes porque definitivamente me deram muitos e muitos anos de alegrias e risadas e, incrivelmente, posso falar que acho que dei muita alegria pra vocês durante todos esses anos em que passamos juntos.

Ah, meus queridos amigos! A dor de lhes ter perdido é grande, grandessíssima, mas a alegria de estar podendo me descobrir com sinceridade interior também é enorme. O nerd que foi amigo de vocês por tantos anos sempre vai lembrar de vocês com carinho e sempre vai torcer pra que todas as coisas nas suas vidas acabem bem, com alegria. Meus queridos amigos, me recuso a referir a vocês como ex-amigos ou antigos amigos. Por mais que não estejamos mais juntos a marca que vocês deixaram em meu coração é enorme, profunda e inesquecível.

Queridos amigos, lhes digo, apaixonem-se por si mesmos. Sintam o amor puramente humano correr por entre os seus poros e veias, encarem-se com ternura, com alegria, com bom humor. Queridos amigos fiquem bem. Só por hoje estou bem! Estou bem mesmo. Fiquem bem também. Só por hoje, para sempre, até o fim.

Com carinho, sempre seu,

Cesar Gaglioni Federici