Pulei os dias três e quatro por achar que não tinha nada a dizer.
Amigo, hoje estou um pouco mais introspectivo. Um pouco melancólico, talvez. Eu estava pensando aqui: talvez por uma série de razões pelas quais não consigo identificar que se apresentaram na infância, a minha necessidade de atenção foi sendo construída aos poucos. É curioso que eu nunca liguei se a atenção era boa ou ruim, desde que ela se fizesse presente.
Quando cheguei aos quatorze anos mais ou menos e sabia mais ou menos que caminho queria seguir, passei a ler grandes filósofos e grandes obras da literatura. Nietzsche, Kierkeegard, Schopenhauer, Rimbaud, Tolstói e outros. Acho que pra um garoto de cabeça fraca que queria se sentir especial, ler isso tudo pode ter sido essencialmente prejudicial. Obviamente a culpa de tudo que acontece hoje não é nem um pouco deles.
Nos dezesseis, quando fui entender mais quem tinha sido Jim Morrison, Janis, Billie Holliday, Cobain, Curtis e outros acho que ali passei a internalizar a ideia de que pra se produzir uma obra artística de qualidade ou profunda necessariamente você ia precisar de uma atitude dionisíaca. Um desapego completo do padrão de humanidade e dos protocolos sociais. Acho que apesar do meu lado consciente demonstrar (até hoje) um desprezo completo por quem eu sou, o inconsciente ficou martelando que talvez eu fosse um gênio incompreendido que só iria ser reconhecido após a invariável morte.
Acho que foi ali que a auto-destruição começou. Eu queria ser reconhecido pela minha arte. Não tinha nada além disso a oferecer pro mundo. Queria estar num patamar próximo a todos eles. O que vim a realizar só agora, amigo, quando bati no fundo do poço é que você não precisa ser deslocado, misantropo, depressivo o tempo todo e tudo o mais pra conseguir fazer uma boa arte. Acho que a imagem dionisíaca que se formou desses artistas no inconsciente coletivo contribui pra isso. Não sei. Mas de novo, a responsabilidade é toda minha e de mais ninguém.
O que me machuca, amigo, é saber o quanto essa ideia absurda machucou meus queridos amigos por tanto tempo. E concluir, então, que o melhor que eles puderam fazer era exatamente o que fizeram: me deixar me perder no mundo. Tenho certeza que o fim não foi só doído pra mim, e que a V., Vl. e N. também sentiram esse fim, mas ao mesmo tempo, sentiram algum alívio de finalmente estarem se afastando de alguém que é (logo menos, era) tóxico e que tinha uma aura de destruição envolta de si. Na minha cabeça deturpada, me jogar de cabeça ao fundo do poço talvez amortecesse a queda de quem pudesse cair nele também e impediria que coisas mais pro fundo subissem. Você toca a escuridão e ela toca de volta.
Queridos amigos, me desculpem. Me perdoem. Sei que as coisas não vão ser como eram, e sei também que acho que não quero que sejam. Mas ao menos, só por hoje, quero me sentir em paz com vocês. Só por hoje e para sempre.
Não tenho muito mais a dizer por hoje. Estou ficando um pouco ansioso escrevendo isso. Vou tentar desligar a cabeça por algumas horas.
Love,
Cesar
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